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O novo consenso entre especialistas da área simplifica alguns
conceitos, introduz uma nova categorização dos pacientes e recomenda um
tratamento mais intenso logo nos primeiros estágios da doença.
Em resumo, as novas diretrizes europeias classificam como:
– Pressão arterial não elevada: abaixo de 120 por 70 milímetros de mercúrio (mmHg) – o popular “12 por 7”.
– Pressão arterial elevada: entre 120 por 70 mmHg e 139 por 89 mmHg (de 12 por 7 a “quase” 14 por 9).
– Hipertensão arterial: maior que 140 por 90 mmHg (acima de 14 por 9).
Vale destacar que esses números levam em conta a medida da pressão feita no consultório, por um especialista.
Até
então, os cardiologistas costumavam dividir esses índices em seis
categorias: ótimo (abaixo de 120 por 80 mmHg), normal (entre 120 por 80 e
129 por 84 mmHg), pré-hipertensão (entre 130 por 85 e 139 por 89 mmHg),
hipertensão estágio 1 (entre 140 por 90 e 159 por 99 mmHg), hipertensão
estágio 2 (entre 160 por 100 e 179 por 109 mmHg) e hipertensão estágio 3
(acima de 180 por 110 mmHg).
Segundo os autores da diretriz, a simplificação dos termos e a
criação de uma nova categoria clínica – “pressão arterial elevada” – têm
como objetivo intensificar o tratamento em estágios iniciais, para que a
pressão arterial fique dentro da meta especialmente entre pessoas com
risco aumentado de doenças cardiovasculares.
“A
nova categoria reconhece que as pessoas não passam de uma pressão
arterial normal num dia para a hipertensão no outro”, justifica Bill
McEvoy, professor da Universidade de Galway, na Irlanda, e um dos
autores do novo consenso.
“Na maioria dos pacientes, há uma mudança gradual e constante [da
pressão arterial]. Diferentes subgrupos, como por exemplo, aqueles que
apresentam maior risco de desenvolver problemas cardiovasculares,
poderiam se beneficiar de um tratamento mais intensivo antes que a
pressão arterial deles atinja o limite tradicional da hipertensão”,
complementa ele, num comunicado divulgado à imprensa.
Rhian Touyz, professor da Universidade McGill, no Canadá, e outro
responsável pelas novidades, acrescenta que “os riscos associados ao
aumento da pressão arterial começam quando os níveis da pressão
sistólica [o primeiro número da fórmula] ainda estão abaixo de 120
mmHg”.
As novas classificações também alteram os esquemas de tratamento medicamentoso e os cuidados de estilo de vida.
Entre elogios e críticas, um problema monumental
O descontrole da pressão arterial é o principal fator de risco por trás de infarto e acidente vascular cerebral (AVC).
“As doenças cardiovasculares são as que mais matam no Brasil e no
mundo. No nosso país, por exemplo, uma pessoa morre a cada 90 segundos
por causa de algum problema no coração ou nos vasos sanguíneos”, estima o
médico Fábio Argenta, membro do Conselho de Ética Profissional e do
Comitê de Comunicação da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC).
“A
hipertensão é o principal fator de risco não apenas para infarto e AVC,
mas também está relacionada com insuficiência cardíaca, insuficiência
renal, cegueira e até demência”, pontua o especialista.
E é curioso pensar como algo tão relevante – e tão frequente –
não chama a atenção e não é visto como uma grande ameaça pela maioria
das pessoas.
O médico Carlos Alberto Machado, assessor científico da Sociedade
de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp), calcula que quase 1,2
bilhão de pessoas sofrem com a hipertensão no planeta.
“O
grande problema é que mais da metade nem sabe que é hipertensa. Entre
aquelas que sabem, só metade faz o tratamento. E entre quem faz
tratamento, apenas metade tem a pressão controlada”, resume o
cardiologista.
Para o especialista, as mudanças nas diretrizes europeias ajudam a
chamar atenção para o aumento da pressão arterial, mesmo que ela ainda
não tenha alcançado os índices compatíveis com um quadro de hipertensão.
Argenta informa que a SBC já estava trabalhando para renovar as
diretrizes brasileiras de hipertensão. O novo documento deve ser
publicado no país durante o primeiro semestre de 2025.
“As
diretrizes de Europa e Brasil costumam andar juntas, então há uma
tendência de que a nossa atualização siga pelo mesmo caminho”, adianta
ele.
“Precisamos levantar a bandeira de que o adequado não é mais o 12
por 8. De agora em diante, é preciso estar de 12 por 7 para baixo. Esse
é o novo normal”, complementa o cardiologista.
O médico Luiz Bortolotto, diretor da Unidade de Hipertensão do
Instituto do Coração (InCor), em São Paulo, critica a criação da
categoria “pressão elevada”.
“A população e os próprios médicos podem ficar confusos. É muito
difícil colocar na cabeça das pessoas que uma pressão acima de 120 por
70 mmHg é elevada e qual será o impacto disso”, avalia ele.
A estratificação de risco da pressão alta
Mas o que todas essas mudanças de critérios significam na prática?
Para aqueles que estão com a pressão arterial não elevada, vida normal: não é preciso fazer nada em específico.
Para os hipertensos, não há dúvidas de que é necessário começar
um tratamento medicamentoso, além de incentivar uma série de mudanças no
estilo de vida — sobre as quais falaremos adiante— para diminuir o
risco de vários problemas de saúde.
Já para os que caíram na categoria “pressão elevada” —quando os
números ficam entre 120 por 70 e 139 por 89 mmHg—, a recomendação da
nova diretriz é passar pela chamada “estratificação de risco”.
Em
resumo, o médico vai avaliar uma série de indicadores de saúde para
estimar a probabilidade de o indivíduo sofrer algum desfecho
cardiovascular mais grave (como infarto ou AVC).
Na hora de fazer essa conta, os especialistas consideram questões
como o diagnóstico de outras doenças cardíacas ou a presença de outras
enfermidades crônicas, como diabetes tipo 2, colesterol elevado,
obesidade…
Se o risco de o paciente sofrer algum desfecho cardiovascular nos
próximos dez anos ficar abaixo de 5%, a recomendação é promover uma
série de mudanças de estilo de vida e reavaliar a pressão arterial em um
ano.
Agora,
se esse risco superar os 10%, o documento europeu indica fazer as
mudanças de estilo de vida e, após três meses, iniciar o tratamento
medicamentoso para os indivíduos cuja pressão seguir acima de 130 por 80
mmHg.
Já para o grupo em que risco varia entre 5 e 10%, o médico deve
considerar fatores relacionados à etnia, sexo, deprivação
socioeconômica, doenças autoimunes, entre outros, para definir o melhor
caminho – testar as mudanças de estilo de vida por um ano ou fazer uma
reavaliação após três meses para checar a necessidade de entrar com os
remédios.
Manter-se no peso (ou emagrecer), adotar uma dieta variada e
equilibrada, ter uma rotina regular de atividade física, não fumar,
evitar bebidas alcoólicas e reduzir o consumo de sal são as
recomendações clássicas para baixar a pressão.
Mas
a diretriz europeia trouxe duas novidades relevantes nessa seara.
Primeiro, aumentar o consumo de alimentos ricos em potássio – que, ao
contrário do sódio encontrado no sal de cozinha, abaixa a pressão.
Em segundo lugar, investir em treinamentos isométricos e de resistência, como os exercícios feitos na academia.
Remédio em dobro para controlar a pressão?
Outro destaque das novas diretrizes europeias envolve uma “intensificação do esquema terapêutico”.
Na
maioria dos casos, a orientação é já iniciar o tratamento com dois
remédios de classes farmacológicas distintas, como a dos diuréticos, dos
antagonistas adrenérgicos, dos beta-bloqueadores, dos bloqueadores de
canais de cálcio, entre outros.
“Uma das principais causas das baixas taxas de controle da
hipertensão no mundo é o fato de o médico muitas vezes insistir em usar
apenas um remédio. Isso é o que chamamos de inércia terapêutica”,
observa Machado.
Acompanhamento e diagnóstico da hipertensão
Mas
como fazer o diagnóstico de pressão elevada ou hipertensão? Existe um
momento da vida ou uma periodicidade para fazer essa medição?
“Acima dos três anos de idade, a criança deve ter a pressão arterial aferida pelo pediatra”, responde Argenta.
“Da infância até os 40 anos, esse exame precisa ser repetido a cada três anos”, complementa o cardiologista.
Dos 40 anos em diante, o ideal é medir a pressão pelo menos uma vez a cada 12 meses, dizem os especialistas.
Essa regularidade é importante porque a hipertensão não costuma dar sintomas, especialmente nas fases iniciais.
Com informações de Folha de São Paulo

