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Lula deixou entrever a preocupação com o fiasco do PT nas eleições
municipais. O partido aumentou timidamente o número de cidades que
governa, embora haja os otimistas que vejam aí um “recomeço”, e não
conseguiu conquistar a prefeitura de nenhuma capital importante.
No cômputo geral, a esquerda encolheu pela metade desde 2012. No
primeiro turno das eleições deste ano, todas as legendas do espectro
ideológico fizeram juntas menos prefeitos do que o PSD de Gilberto
Kassab.
O presidente da República disse, em entrevista, que é preciso
“rediscutir o papel eleitoral” do PT. Entre as quatro paredes do
partido, contudo, Lula apontou culpados e brandiu o açoite.
Em público, ele afirmou que “toda vez que termina eleições
aparecem os vencedores e heróis que acham que o mundo, a partir dali,
mudou. A eleição de prefeito não tem muita incidência na eleição
presidencial, porque nem todo prefeito no segundo ano de mandato está
bem”.
Na intimidade, Lula está preocupado com a crescente possibilidade
de Tarcísio de Freitas ser o nome da oposição (e de alguns aliados
atuais) na disputa pelo Palácio do Planalto, em 2026. O governador
paulista saiu-se muito bem na eleição municipal, ao bancar Ricardo Nunes
contra a vontade geral bolsonarista, e já é visto pelo próprio Jair
Bolsonaro como a melhor alternativa para a próxima eleição presidencial.
Rediscutir
o papel eleitoral do PT implicaria que o próprio Lula admitisse que
sempre se comportou como árvore frondosa demais para que outras
crescessem a seu lado, e que o partido não atraiu quadros jovens ao
longo dos anos, não a ponto de fazer diferença, fato agravado pela perda
da base sindical, antes fornecedora de companheiros. O definhamento de
categorias profissionais como as dos metalúrgicos e bancários e as
mudanças no mercado e nas relações de trabalho causaram a quase extinção
de tal base.
Não houve renovação, e exemplo bastante evidente disto é que o PT
recorreu à quase octogenária Marta Suplicy, que havia saído do partido,
para ser vice na chapa de Guilherme Boulos — candidato do PSol. O PT é,
hoje, uma agremiação de velhos tanto na idade quanto na ideologia, em
contraste com os partidos de direita, polo de captação de uma juventude
interessada em “desafiar o sistema” (não deixa de ser curioso, embora
sintomático, como o desafio ao sistema, bandeira tradicionalmente da
esquerda, passou a ser agitada pela direita, e não apenas no Brasil).
Para
além do envelhecimento interno, ano após ano, eleição após eleição,
Lula também salgou o terreno dos demais partidos da esquerda brasileira,
ao tratá-los como meras linhas auxiliares — e eles aceitaram funcionar
como tal, voluntariamente servis. Perderam, assim, a oportunidade de
ganhar independência, luz própria, ao não se distanciarem de Lula e do
PT quando o chefão e a organização foram torpedeados pela Lava Jato. O
resultado é este aí.
Fonte: Metrópoles

